A Ilusão do Consumo Ético: Do Arroz a J.K. Rowling

Tudo o que gastamos está diretamente ligado a um sistema opressor, as marcas, as roupas, os alimentos, de inúmeras formas estamos investindo num sistema opressor, precisamos consumir para sobreviver, assim sendo, todos os dias estamos gastando nosso dinheiro com grandes corporações que investem em desigualdade, portanto, não existe consumo ético dentro do atual sistema que vivemos, pois todo consumo é sempre opressor em alguma via.

Quando paramos pra analisar de onde vem qualquer produto que consumimos, chegaremos a uma organização opressora em sua raiz, pensando assim colocamos essa situação analisando JK Rowling, a autora está mais próxima da obra, ela está diretamente relacionada a tudo, e agora a série anunciada de Harry Potter, isso faz com que o sentimento que temos em relação à obra se torne mais afetivo, sentimental e direto, diferente do sentimento que temos ao comer um pacote de arroz, na Ásia a exploração na produção de arroz ainda é muito alta, com baixos salários, exploração infantil e, claro, a exploração ambiental que afeta o clima e a qualidade de vida.

Onde quero chegar com essa comparação entre arroz e JK Rowling? Que não importa qual o tipo de consumo que você faz, o consumo simples como um pacote de arroz já está diretamente ligado à exploração, e o que podemos fazer diante disso? É válido deixar de consumir a obra pensando que o consumo dela é problemático? Mas fará alguma diferença financeira para JK Rowling e para o seu investimento em projetos antiprogressistas?

Pois não vai, a riqueza de JK Rowling não depende de Harry Potter, ela possui inúmeros investimentos além de Harry Potter. Mas qual seria a solução? As obras de JK possuem um valor cultural imenso em todo o planeta, destruir isso é o mesmo que imaginar o sistema capitalista ruir, é simbólico apenas, mas está distante, trazer consciência para essa problemática é essencial! Lutar contra a transfobia não é discutível, mas deixar de consumir a nova série por conta da autora não vai mudar nada em toda essa estrutura que Harry Potter possui em todo o sistema cultural.

Obra X autor

O mundo das ideias é muito maior que apenas assimilarmos autor x obra, a obra vem de inúmeras referências externas para que aquele universo exista, o autor é a entidade que reúne todas aquelas ideias externas, então partindo de que nenhuma ideia de JK Rowling é originalmente dela, e sim do ambiente externo, a obra pode sim ser separada do autor, para alguns acredito que não, não conseguem consumir a obra por conta de problemáticas envolvidas com o autor, mas a obra tem valor externo, ela vem do mundo das ideias antes de estar diretamente relacionada ao autor, penso que uma maneira mais simples de pensar sobre isso é compreendermos a quantidade de pessoas envolvidas nesse projeto cultural chamado Harry Potter, não é só JK Rowling, são centenas de atores, diretores, roteiristas, figurinistas, designers e muitos outros.

Harry Potter já não é mais JK Rowling há muito tempo, é muito maior do que ela pensou em ser.

Continuemos a trazer esse debate, refletindo sobre consumo, sobre quem lucra com isso, e o que seria o “consumo ético”, e sempre com foco em trazer consciência para as pessoas, para que elas compreendam o quanto essa autora que foi a base de um universo que se tornou tão cultuado em todo o globo é uma pessoa nojenta e criminosa.

Não existe consumo ético se tudo que consumimos vem de um sistema opressor.


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